sábado, 12 de março de 2011

Clássicos?
Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo...” nunca “Estou lendo...”.
Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela a primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas obras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.  Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe.
Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele reconhece logo o seu lugar na genealogia.
É um clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.
Ítalo Calvino

   

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